Aceita, mon amour: o poder das drags e a conquista de espaço na música





Justamente quando mais temos debates variados em torno de assuntos como feminismo, transfobia, homofobia e muitos outros tópicos pertinentes para a desconstrução dos padrões opressores de toda uma sociedade, é quando mais comentários enraizados no ódio e na incapacidade do ser humano de aceitar o outro como ele é, surgem. A campanha de uma loja virtual de cosméticos femininos foi responsável por uma das campanhas mais nojentas que eu pude ter o desprazer de ver no mundo virtual (campanha essa que inclusive foi para o off em um outdoor de tremendo mau gosto). Uma campanha que diz que ser travesti é um ato de pirataria (e por consequência, crime) justamente na semana das mulheres e na nossa sociedade atual é, no mínimo, um disparate imenso. 

Houve um tempo onde as drags eram vistas e reproduzidas pela mídia como nada mais do que acessórios de chacota, um conteúdo cômico e sem talento para causar riso em qualquer um que assistisse, mas hoje nós não aceitamos mais isso. É de um imenso orgulho ver drags tão talentosas ganhando espaço na indústria musical e, mesmo que saibamos que isso tem acontecido de forma tímida e muito mais online, porque somos nós os responsáveis pelos conteúdos que consumimos na internet, ainda assim é uma vitória. 

Uma das músicas (ou se preferir, a música) do carnaval foi sem dúvida alguma Todo Dia. Com vocais nitidamente femininos, vemos o olhar de confusão de alguns ao descobrir que a sua intérprete se chama Pabllo Vittar. Ainda não conhece esse nome? Bem, você deveria. Ela está muito presente no palco de um programa chamado Amor & Sexo. Sim, daquela emissora conhecida que todo mundo assiste. 





Com as discussões sobre identidade de gênero em alta, alguns veículos viram nisso uma forma de propagar conhecimento sobre questões vistas ainda com muito preconceito. É o caso da Revista TRIP que investiu em algumas entrevistas com cantoras drags para contar um pouco de suas histórias. Inclusive uma dessas entrevistas foi com ninguém menos que Gloria Groove (queridinha do meu coração), a dona da porra toda!




É muito mais fácil para nós, jovens, aceitarmos a desconstrução de conceitos até então tidos como verdade absoluta ou corretos e qualquer coisa fora dessa linha, errado. E talvez seja exatamente por isso que artistas maravilhosas como Pabllo Vittar, Gloria Groove, Lia Clark e MC Linn da Quebrada estejam crescendo e aparecendo cada vez mais, porque estamos presentes. Cada vez mais jovens produtores surgem no cenário musical com propostas diferentes e por que não aproveitar artistas tão talentosos? Somente por causa de sua orientação sexual? Somente por causa de sua identidade de gênero? É de talento que nós estamos falando, é de compromisso com a arte e o entretenimento e não sobre quem estas pessoas estão levando para suas camas.

Quando eu me propus a atualizar meu iPod da última vez com álbuns e EPs que eu acabei ouvindo em algum lugar e gostando, pude perceber que muita coisa alí era do vale. Do vale dos homossexuais, no caso. Tinha o Clark Boom, Vai Passar Mal, O Proceder e até o After Party da Adore Delano. Neste exato momento eu pude perceber que até mesmo as minhas playlists estavam se modificando. Não se resumia mais à uma faixa avulsa de alguma concorrente do Ru Paul’s Drag Race que eu havia até que gostado. Não, se tratavam de álbuns bons. Álbuns bem produzidos, músicas consistentes e divertidas. Em suma, materiais que eu tinha orgulho de colocar nos meus limitados 2GB do iPod Shuffle.

É por isso que essa semana é uma semana das mulheres, só que um pouco mais do que isso: é uma semana de TODAS as mulheres. Citando Simone de Beauvoir e correndo o risco de cair no clichê quando se trata deste assunto: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. O que é o processo de produção de uma drag queen senão “tornar-se mulher”? E mais do que isso, essas mulheres estão se tornando artistas reconhecidas pelos seus talentos. Não há maior orgulho do que ver pessoas fazendo sua arte com paixão e as drags, meu amor, fazem isso com perfeita maestria. Resta aceitar. É isso mesmo, hein?





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About Nivaldo Junior

Caiçara de 21 anos, sagitariano, estudante de Propaganda e Marketing. 75% do tempo com fones de ouvido. Não passa um dia sem ouvir músicas e descobrir novas séries e filmes para assistir. Reservado, passional e leitor ávido.

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